Símbolo de resistência, as tranças africanas representam estilo, empoderamento e impulsiona o trabalho de mulheres negras

Por Natalia Vicente
14/06/2021 18:01

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Box Braids, Crochet braids, Nagô, Twist: talvez você já tenha ouvido falar nessas formas de penteados ou até mesmo use alguma delas. As tranças africanas são um símbolo de identidade que carrega na história a resistência, a cultura e o orgulho do povo preto, e cada vez mais mulheres e até mesmo homens retornam às suas raízes ancestrais ao adotarem esse estilo. Hoje elas se tornaram também fontes
de renda para muitas mulheres.

Quando começou, Mariana Reverte conciliava o trabalho de cozinheira com o de trancista, que resolveu fazer a princípio para ter um dinheiro extra no fim do mês. Com o passar do tempo percebeu que essa poderia virar sua principal profissão, deixando assim seu trabalho de cozinheira, para se dedicar somente às tranças. Hoje, dois anos depois, ela comemora ter aberto seu próprio negócio. “Essa foi uma das melhores decisões da minha vida. Sabia que não iria ser fácil ser trancista, mas cuidar das pessoas e da sua autoestima, ver o sorriso de satisfação, é impagável”, afirma.


Mariana Reverte abandonou o trabalho na cozinha pelas tranças. Foto: Arquivo Pessoal

De norte a sul, da capital ao interior do Espírito Santo, a profissão tem ganhado mais espaço. Cinelangia Pereira ou Cica, como é conhecida, é um exemplo de como essa atividade vem crescendo. Ao mudar do município da Serra para Ibiraçu, no norte do Estado, viu na paixão pelas tranças a oportunidade de uma nova carreira. 


Cica também viu nas tranças uma oportunidade para mudar de carreira. Foto: Arquivo Pessoal

“Quando comecei a minha transição capilar, usei as tranças para me ajudar e acabei me apaixonando. Hoje é minha profissão! Às vezes é cansativo e as mãos doem a ponto de não conseguir fechá-las. São dez, 12 a até 16 horas em pé fazendo o mesmo movimento. Sem contar que as pessoas nem sempre valorizam o ofício e, por vezes, não querem pagar o que o nosso trabalho vale”, relata.


Com a pandemia do novo coronavírus, boa parte da população teve que se reinventar e buscar alternativas para obter outros meios de remuneração. Victoria Helena não tinha condições de pagar alguém para fazer as tranças em seu cabelo. 


Resolveu, então, ver tutoriais de vídeo no Youtube para fazer em si própria


Victória Helena comanda o @trancasdavic no Instagram. Foto: Arquivo Pessoal


Victoria relata que, quando as pessoas viram que ela trançava o próprio cabelo, gostaram tanto do resultado que começaram a pedir para que ela fizesse nelas. “Eu comecei cobrando um valor muito abaixo do mercado, mas começou a aparecer gente e mais gente, o que me deu um retorno financeiro. Eu não vivo só da renda da trança, pois tenho um trabalho fixo, mas no ano de 2020 eu consegui viver só com a renda da trança”, revela.



MERCADO E IDENTIDADE

Pexels
Foto: Pexels


Desde 2009, a profissão de cabeleireiro étnico e trancista passou a ser reconhecida pelo Ministério do Trabalho no Brasil, o que torna as tranças não apenas um serviço mas um negócio promissor. A manutenção e venda dos cabelos sintéticos, os penteados e até cursos de capacitação para tranças africanas resultam em um mercado lucrativo. 


Dependendo do tipo de trança, da espessura e do volume, o valor a ser cobrado pelo trabalho fica em torno de R$150,00 a R$450,00. Já para quem quer se aperfeiçoar e fazer o curso de trancista, o investimento gira em torno de R$500,00, isso no modo online. Mas vale ressaltar que além da remuneração, as tranças reforçam o movimento da afirmação da própria identidade, em que a pessoa assume suas origens e quem ela realmente é. 


Cada dia mais mulheres negras deixam de lado o alisamento e a química, e assumem seus cabelos naturais. “Nós negros começamos a enxergar em nossos cabelos uma forma de afirmar nossa identidade e uma grande parcela de contribuição para o aumento do mercado de tranças é a transição capilar. À medida que as mulheres iniciam a transição capilar acabam optando pelo uso da trança”, acredita Cica.


Mais do que uma moda, as tranças vieram para resgatar e valorizar algo que o racismo tentou apagar da cultura negra. Para se tornar uma trancista, além da capacitação, é preciso alguns outros elementos, como exemplifica Mariana. “Não é difícil ser uma trancista, aprender a trançar é fácil, todos conseguem, mas o que vai chamar a atenção é o diferencial, é o amor que a pessoa põe naquilo que faz. Além disso, força de vontade, querer aprender uma profissão nova e ter paciência para isso, pois a paciência é uma virtude”. 


Victoria complementa afirmando que a prática é essencial. “Quanto mais você pratica, mais você aperfeiçoa sua técnica. Para ser uma trancista é preciso trançar e trançar. Além da teoria, é preciso colocar a mão na massa”.



TIPOS E CUIDADOS


BOX BRAIDS: conhecidas como “tranças Kanekalon” ou “tranças sintéticas”, são um estilo de penteado protetor onde o entrelaçamento é feito nos fios naturais com a adição de cabelos sintéticos. Braids se traduz como tranças e box significa “Caixa”. Então, o nome do penteado se dá porque as tranças são feitas com o cabelo dividido em mechas “quadradas”, ou seja, cada trança fica “em uma caixa”.



CROCHET BRAIDS
: também chamadas de tranças de crochê, o crochet braids, é um estilo de penteado criado a partir de extensões ou apliques de cabelo colocados nos fios naturais penteados em tranças de raiz embutida.



TRANÇA NAGÔ:
são tranças feitas desde a raiz, bem presas no couro cabeludo. Podem ser feitas com o próprio cabelo - se estiverem bem longos - ou usando cabelo sintético. Além disso,  as tranças podem ser feitas em diferentes formatos a escolha da pessoa.



TWIST
- é uma técnica de penteado que consiste em torcer duas mechas de cabelo, uma em volta da outra, formando uma trança. É bastante utilizada por quem está passando pela transição capilar.



Ao contrário do que muitas pessoas pensam, a trança não danifica o cabelo. É preciso adotar alguns cuidados simples, como por exemplo, lavar com shampoo com as pontas dos dedos, dormir de touca ou fronha de cetim e respeitar o período de manutenção e permanência delas, orientados pelas trancistas. 



Se você ficou interessada(o) em adotar o visual ou quer saber mais sobre a profissão, as meninas abaixo podem te ajudar.



Trançarte Ateliê


Contato: 27 99863-2450 (Cica)


Instagram: @trancarteafrohair



Bora Trançar


Contato: 27 99852-8555 (Mariana e Janara)


Instagram: @boratrancar_



Tranças da Vic


Contato: 27 99910-1999 (Vic)


Instagram: @trancasdavic


Foto de destaque: Pexels

Este conteúdo foi produzido em parceria com o Centro Universitário Faesa, com a supervisão da professora do curso de Jornalismo Emília Manente.