Com ações de resistência e empoderamento, coletivo de mulheres fortalece a comunidade em meio à pandemia

Por Gabriela Jucá
21/06/2021 13:46

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Há um tempo atrás, no início da pandemia, enquanto apurava informações para uma matéria, me deparei no caminho com uma personagem interessante. Conheci, mesmo que via telefone, a Rosângela Leite, uma mulher simpaticíssima, multitalentosa e com uma vasta experiência profissional no gerenciamento de badalados salões de beleza da Grande Vitória. Mas a história dela não para por aí: mulher negra, decidiu abdicar da vida de cuidar de salões de elite para atender e se especializar na estética preta. 


Essa decisão também marcou o seu retorno para a periferia, especificamente para o bairro de Caratoíra, em Vitória.  À época, me contou que estava feliz e realizada com o novo empreendimento e, de quebra, sentia que fortalecia a comunidade ao dividir toda a expertise em penteados afro, tranças, e maquiagens para a pele negra. Além de tudo isso, me contou que participava do MUCA.


Com toda a minha ignorância e curiosidade, corri atrás para saber o que significava o MUCA. A sigla representa as Mulheres Unidas do Caratoíra, um coletivo que teve início em 2016 a partir de um grupo terapêutico da Unidade Básica de Saúde Ariovaldo Favalessa. Autônomo, periférico e militante pelos Direitos de mulheres negras, tem o foco em ações de empreendedorismo e de empoderamento.

Reunião do MUCA
Uma das reuniões realizadas pelo MUCA, em 2019. Foto: Reprodução/Instagram MUCA


A iniciativa do MUCA foi se mostrando ainda mais latente quando passei a acompanhar o trabalho que essas mulheres realizavam via Instagram. Conhecidos, amigos, artistas, enfim, várias pessoas postavam sobre o trabalho do MUCA nas redes.


Nos primórdios do coletivo, o MUCA prestava assistência a 70 famílias da região. Hoje, são mais de 400 famílias sendo assistidas.


Todas essas informações também levaram aos questionamentos: E agora, como estão enfrentando a pandemia? Como estão essas mulheres? Do que a comunidade precisa?


Em busca de respostas, conversei com duas das cinco articuladoras que hoje compõem o MUCA, a empreendedora, educadora, e ativista social, Winy Fabiano, e a assistente social Rayanne Rocha, que prestam ações diretas e são responsáveis pelo coletivo. Também são realizadas ações de suporte ao coletivo, tanto na captação de recursos, como na organização financeira, na mobilização e articulação dentro da comunidade.



MUCA RESISTE


O trabalho de enfrentamento à pandemia teve início em março de 2020. A preocupação inicial era manter as pessoas dentro de casa, com acesso à alimentação básica. Sem ajuda do poder público, o MUCA segue com esse atendimento até hoje, em 2021. Além disso, reforçaram não só a disseminação de informações para evitar o contágio da Covid-19, como também têm divulgado informações a respeito de violência doméstica, reflexo do aumento de casos de feminicídio em todo o país.


Desde o início da pandemia, todas as atividades foram suspensas. Já não era mais possível realizar os encontros e ações na Unidade de Saúde, como costumavam fazer. No momento, os encontros se dão na casa de uma das articuladoras do coletivo. Em nossa conversa, Winy enfatiza a união das mulheres em prol de todas. Algumas das articuladoras perderam os empregos e acabaram dando um suporte oferecendo a própria residência para que pudessem realizar as reuniões.


Embora as atividades permaneçam suspensas, como as rodas de conversa e feiras solidárias, o MUCA está agindo em outras frentes, focado não somente no bem-estar das mulheres, mas na sobrevivência de toda a comunidade. Por isso, estão ativas e engajadas na captação de alimentos para as famílias da região, duramente afetadas pelos gargalos da pandemia, com a ação Favela Resiste. Já foram mais de 400 famílias atendidas nesse período com cestas básicas, kits de limpeza, leite, gás, máscaras, álcool, fraldas e outros itens básicos “Estamos nos fortalecendo, seja de forma direta ou indireta, para garantir melhorias para a comunidade”, afirma Winy.

doações
Coletivo está ativo em garantir a sobrevivência da comunidade. Foto: Reprodução/Instagram MUCA


Em busca de novas articulações, os canais de comunicação digital estão sendo o principal refúgio diante da impossibilidade de ações e encontros presenciais, alavancando captações e doações. 


Os coletivos e as ações sociais estão enfrentando duras dificuldades nesse período de pandemia, em que enfrentam uma redução brusca de doações e um alto número de famílias que estão precisando de comida na mesa. Os canais de comunicação têm se mostrado como a principal saída e principal fonte de divulgação, seja o Instagram, Facebook ou WhatsApp.



DESAFIOS


Para as mulheres do MUCA, o maior desafio é manter a própria saúde mental. Além das questões das famílias assistidas pelo coletivo, as integrantes também enfrentam os próprios problemas dentro de casa, sejam de cunho familiar, financeiro, afetivo, enfim: a lista é extensa. “Às vezes não conseguimos sanar todas as necessidades, mas buscamos estar sempre por perto para ajudar o outro. O acesso a psicólogos na região está bem difícil”, relata Winy.


Ela ainda conclui que, ao final das contas, elas mesmas, as próprias articuladoras do coletivo, são os maiores desafios, com problemas residenciais, o enfrentamento à escassez de alimentos, e o desemprego batendo à porta.

Doações
MUCA resiste e contribui para uma comunidade com mais oportunidades. Foto: Arquivo Pessoal/MUCA


Na realização de atendimentos às famílias, tiveram pequenas ajudas do Governo do Estado, com as doações que fizeram parte do programa ES Solidário. No entanto, enfrentam dificuldades aos acessos das doações por questões meramente burocráticas. O MUCA constitui-se como uma organização voluntária, e a dificuldade de acesso se dá devido à falta do Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ).



O FUTURO É AGORA


Embora o mundo esteja diante de tempos difíceis para quem sonha, a união dessas mulheres é um sopro de esperança que configura resistência, empoderamento e, acima de tudo, amor pela comunidade, pelas famílias e histórias que habitam a região de Caratoíra, e pela independência das mulheres negras. 


Em um futuro não tão distante, o MUCA pretende ter uma sede para chamar de sua. Não só um lugar em que possam partilhar experiências e fortalecer outras mulheres, mas também que, junto ao espaço físico, possam contribuir para a manutenção financeira do coletivo. São sonhos apenas esperando para serem concretizados e que, possivelmente, ajudarão também outras comunidades. 

Winy e Rayanne
Winy Fabiano e Rayanne Rocha: articuladoras do MUCA. Foto: Acervo Pessoal/MUCA


Para finalizar a conversa, perguntei a maior motivação para continuarem o trabalho do MUCA. Ao que me responderam: “Mulheres dando os próprios passos e escrevendo a própria história. Trabalhamos por uma comunidade mais unida e, cada vez mais, empoderada”, finaliza Winy.



AJUDE O MUCA

Colabore para a sobrevivência do MUCA e das famílias de Caratoíra. Se puder, realize doações pelo PicPay: http://bit.ly/PicPayMUCA. O MUCA está disponível no Instagram @mulheresunidasdocaratoira e no Facebook com a página MUCA – Mulheres Unidas do Caratoíra.


Foto de Destaque: Reprodução/Instagram MUCA

Este conteúdo foi produzido em parceria com o Centro Universitário Faesa, com a supervisão da professora do curso de Jornalismo Emília Manente.