Acolhimento, pertencimento e autonomia são fundamentais para o bem-estar do povo preto

Por Natalia Vicente
29/06/2021 10:42

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O preconceito, a violência, a intolerância contra o povo negro, são questões que até hoje estão enraizadas no nosso país. Isso traz várias marcas na vida das pessoas negras: o medo, a angústia e até mesmo o sentimento de não pertencimento e não percepção da própria raça. A dificuldade de identificar a pele como negra e aceitar o cabelo crespo ou cacheado, assim como a fisionomia de uma forma geral, faz parte da realidade de várias pessoas. 


A produtora de eventos Thamires Amon já passou por esse dilema. Aos 25 anos, a capixaba está se descobrindo como uma mulher negra. “Houve um processo de embranquecimento da minha família. Desde a infância, a gente passa pela negação. As pessoas dizem: ‘você não é preta! É morena, no máximo parda’. Nunca fui vista pelos outros como preta e me afirmar como sou é muito importante para minha construção pessoal”, afirma Thamires.


De acordo com dados levantados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), por meio da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua do 4º trimestre de 2020, cerca de 54% da população brasileira é negra. No entanto, dentre as 211 milhões de pessoas que residem no Brasil, apenas 8,7% se autodeclararam pretas. Cerca de 45,9% se entendem e se afirmam como pessoas pardas e 44,3% como brancas. Mas afinal, o que significar “ser negro”? Mais do que uma questão biológica ligada a quantidade de melanina da pele, ser negro é pertencer a um grupo social rico em história, cultura e sentimentos.

mulher negra
Negritude vai além da melanina. Foto: Unsplash


Foi no início do século XX, que surgiu na França, o movimento da Negritude, que buscava o empoderamento e acolhimento do povo preto além da valorização da ancestralidade. Hoje esse movimento se espalhou pelo mundo, inclusive aqui no Brasil, e a sensação de acolhimento e pertencimento nunca foi tão importante. Para o psicanalista Eliseu Martins, esse sentimento é fundamental para preservar a saúde mental e o bem-estar. “Na clínica, a gente percebe que, às vezes, as pessoas negras adoecem ao saber que vão assumir cargos que eles não conseguem enxergar porque não têm uma representação”, afirma. Eliseu acredita que, para que seja possível reverter esse cenário, as pessoas precisam acreditar no seu potencial. “Uma das formas de conquistar a autonomia é o negro afirmar a sua identidade através do discurso sobre ele mesmo. Essa é a grande chave deste processo”, explicou. 


A estudante e empreendedora Ana Nascimento vivencia o processo de se descobrir como uma mulher negra. “Eu só consegui me entender como mulher negra, quando comecei a dar significado e entendi o que é ser uma mulher negra. Eu me projetei dentro da minha história e não daquilo que as pessoas usavam para me classificar como uma mulher negra”, revela Ana.


Denúncias

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Denunciar atitudes racistas é uma forma de garantir direitos e dar mais visibilidade ao problema. Foto: Shutterstock


Ainda há grandes desafios que são colocados para a população negra, e o racismo é um dos maiores. Em 2018, o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH) recebeu, através da Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos (Disque 100), 615 denúncias de discriminação racial. O Espírito Santo foi o estado com o maior número de registros quando comparado com o tamanho da população. Foram 0,31 denúncias a cada 100 mil habitantes. Dois anos depois, os números aumentaram e a situação se agravou. Em 2020, foram registradas 1.061 denúncias de discriminações relacionadas à raça e à cor da pele. Deste total, 18 casos ocorreram no Espírito Santo, o que representa cerca de 0,44 denúncias a cada 100 mil habitantes.


Para o advogado e presidente do Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial (Cepir), Rosemberg Moraes, além da proteção, o ato de denunciar é uma forma de garantir direitos e dar mais visibilidade ao problema. “É importante denunciar quando formos vítimas do racismo para que a gente se assuma como Estado e como País racista e que realmente a gente faça cumprir a lei”, afirmou. Além das Delegacias Regionais ou Departamentos de Polícia Judiciária (DPJ) espalhados pelos municípios, os cidadãos da Grande Vitória contam com outra opção para denúncia. A Delegacia Especializada de Costumes e Diversões (Decodi) possui um departamento próprio para denúncia e investigação de crimes raciais. 


Moraes lembra que, para esse tipo de queixa, não é obrigatória a presença de um advogado e reforça que cidadãos que sejam vítimas do racismo podem buscar meios de acolhimento e de amparo que vão além do campo jurídico. “Além do boletim de ocorrência, é importante que a gente busque espaços de controle social, como os conselhos de direitos humanos, conselhos de promoção de igualdade racial, os movimentos negros organizados, os movimentos de direitos humanos, para que estes sim nos acompanhem”, explicou.

Foto de destaque: Shutterstock.

Este conteúdo foi produzido em parceria com o Centro Universitário Faesa, com a supervisão da professora do curso de Jornalismo Emília Manente.