É o que diz a musicista e mãe solo Thaisa Cardoso, sobre sua realidade com a filha em tempos de pandemia. Conheça histórias de mulheres, trabalhadoras e mães brasileiras e os impactos psicológicos em suas vidas após mais de um ano convivendo com a covid-1

Por Sthefany Duhz
08/07/2021 17:02

Nota aos leitores: O CineMarias oferece abertamente todo conteúdo de sua plataforma por sua contribuição diária para a agenda 2030.

“Não tenho pai, mãe, namorado, nada. Só eu, Deus e minha filha, e eu me sinto muito sobrecarregada. Agora, eu tenho que carregar minha filha para rua comigo. Eu comecei a tocar igual aquele pessoal da Europa que coloca a caixinha no chão, pega o seu instrumento e começa a tocar no meio da rua. Fiz isso para arrecadar uma conta de energia, o aluguel, o leite para criança e assim eu tenho feito”, diz a musicista e mãe solo (mãe solo é a mulher que não conta com ajuda de um parceiro para criar os filhos) Thaisa Ellen Cardoso, de Vila Velha (ES), sobre a sua realidade de trabalho e cuidado com a filha, devido à pandemia do novo coronavírus. 


Thaisa Cardoso é uma mãe solo como as 11,5 milhões de mães solo brasileiras que enfrentam mais riscos e dificuldades financeiras em período pandêmico, sofrendo também com uma sobrecarga mental com o aumento do trabalho do cuidado e doméstico, segundo dados apresentados em reportagem do El País.


thaisa
Sem eventos devido à pandemia, a musicista Thaisa Cardoso passou a tocar na rua para pagar as contas. Foto: Acervo Pessoal


“Não está sendo fácil, mas eu estou sobrevivendo. Eu confesso para você que eu choro todos os dias quando eu chego da rua, porque o meu trabalho não é esse, né? Meu trabalho é tocar em eventos, dar minhas aulas na escola de música que eu tive que fechar por conta da pandemia”, desabafa Thaisa. 


As mulheres são o grupo mais vulnerável a problemas de saúde mental durante a pandemia, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). “A covid-19 interrompeu serviços essenciais de saúde mental em todo o mundo exatamente quando eles são mais necessários. Os líderes mundiais devem agir rápida e decisivamente para investir mais em programas de saúde mental que salvam vidas durante a pandemia e depois”, disse em entrevista o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus.


“Eu fiz o trabalho de home office desde março do ano passado, eu dei aula dentro da minha casa e foi bem desgastante. Tudo o que eu tive que fazer foi online e às vezes eu fujo um pouco disso. (...) Meu cérebro não entende, não aceita, ele não quer, ele quer o presencial e eu não posso, ninguém pode. A gente pode até certo ponto e não tem tanta segurança. Eu sinto falta do presencial, aquele que não tem pandemia, sabe? E eu imagino que todo mundo também sente. Está sendo bem estressante, angustiante. Muitas vezes triste e muito cansativo”, expõe a professora e bailarina, de Cariacica (ES), Thaynah Bettini sobre a sua rotina de trabalho e cansaço no período pandêmico. 



Cansaço, estresse e desgaste: a rotina na pandemia. Foto: Unsplash

Segundo estudo do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), as mulheres são as mais afetadas emocionalmente com a pandemia da covid-19, respondendo por 40,5% de sintomas de depressão, 34,9% de ansiedade e 37,3% de estresse. A pesquisa ouviu três mil voluntários e foi conduzida pela equipe do neuropsicólogo Antônio de Pádua Serafim.


“A gente trabalha sempre com insegurança e com medo. Medo do contágio, medo da crise econômica que estamos vivendo, enfim, uma série de coisas. Se a gente pudesse pegar o filho e colocar dentro de um potinho para proteger, a gente colocaria, mas não tem como. Ele veio me ver no natal e no início do mês de março. Agora não sabemos ainda quando a gente vai se ver”, conta a balconista de 48 anos e mãe do jovem Nathan, de Muniz Freire (ES), Sandra Aparecida de Sousa.

Trabalho remunerado, trabalho do cuidado e tarefas domésticas

A jornada tripla de trabalho das mulheres, hoje substituída pela percepção de jornada contínua de trabalho, como mostra o relatório da consultoria Meiocincodez, na qual as mulheres vivem imersas em tarefas domésticas, trabalho remunerado e o trabalho do cuidado são sobrecargas que a mulher vive e não descansa nunca, apenas quando dorme. 


“Sem sombra de dúvidas o que mais me afetou foi a minha saúde mental. As crianças, graças a Deus, se saíram muito bem e estão felizes apesar das limitações. Mas eu desenvolvi ansiedade e transtornos alimentares por conta da situação da pandemia e do ônus financeiro que tivemos” compartilha a locutora e mãe solo de 28 anos, Veronica Campanussio, de Vila Velha (ES), sobre os efeitos e sobrecargas da pandemia em sua vida.


Segundo a pesquisa Maternidade na Quarentena, desenvolvida pelo Laboratório de Emergência Covid-19, uma iniciativa colaborativa pela Silo – Arte e Latitude Rural, as mães estão saturadas e insatisfeitas. A maioria das mães não está satisfeita com a divisão dos cuidados dos filhos, 86% não estão dando conta de todas as atividades ou estão fazendo com dificuldade e 69% das participantes têm dedicado mais de 8 horas por dia aos cuidados dos filhos, sendo que antes da pandemia esse percentual era de 21%.


Maioria das mães não estão satisfeitas com a divisão de cuidados dos filhos, segundo pesquisa Maternidade na Quarentena. Foto: Unsplash


“Não vou mentir, estar sendo "mãe full time" não é algo simples para mim pois eu trabalho fora desde os 16 anos de idade”, desabafa Veronica Campanussio sobre sua atual realidade de trabalhar como locutora autônoma em casa, com os dois filhos.


A mãe de três filhos e atendente de uma provedora de internet, Dinnycarla de Souza, de Muniz Freire (ES), compartilha os desafios de ser mãe, o desenvolvimento dos filhos, a carga horária de trabalho e menciona como é fundamental o apoio da mãe, de sua rede de apoio. “Ser mãe em mais uma ano de pandemia é muito desafiador, principalmente pelo ano escolar perdido, pois as crianças estão ficando mais ansiosas e mais preguiçosas”.


“Minha mãe me ajuda muito, porque meu tempo com as crianças é bem curto. Saio às sete e meia da manhã e volto às seis e meia da noite. Infelizmente, a gente perde muita coisa do desenvolvimento deles, porém graças a isso, consigo dar uma vida boa aos três”, expõe, Dinnycarla.


De acordo com a doutora em psicologia, militante do Movimento Negro Unificado (MNU/ES) e do Núcleo Estadual de Mulheres Negras, Luizane Guedes, manter uma rede de afetos ativa e próxima é fundamental para a saúde mental em tempos de pandemia.


Rede de afetos: cultive a sua. Foto: Pexels


“Acessar a rede de afeto é fundamental. E quando eu falo rede de afeto é a rede de solidariedade que você tem. Pode ser familiar, rede de amigos mais próximos, aquele amigo que vem na sua porta te deixar uma comida, se você estiver contaminada. Ou, se vai na casa da sua mãe ver se ela está bem, porque você não pode ir por estar contaminada. É essa rede de relações que vai englobar familiares mas também vai englobar pessoas que têm laços de afetos que não são sanguíneos”. 


Luizane Guedes concedeu ao CineMarias uma entrevista sobre saúde mental de mulheres pretas, mães e mães solo na pandemia, na qual conversou também sobre o luto, como explicar para crianças sobre a morte e os caminhos possíveis para se viver em tempos de pandemia. Confira a entrevista completa aqui.



Novos tempos pedem novos formatos em família, lazer e descanso



Pandemia será lembrança de período extremamente desafiador para mães e pais. Foto: Pexels

Apesar de todos os danos, a quarentena proporcionou uma oportunidade às mães e pais terem algum tipo de aproximação com os filhos com o tempo em casa, em família. E com isso, novas formas de convivência, de manejos em família, de brincar, de lazer, de autoconhecimento e conhecimento da relação dos filhos também se desenvolveu.


Entretanto, como disse em entrevista a pesquisadora da ONU Mulheres, Ginette Azcona "muitas mulheres (e homens) vão lembrar deste período como um dos mais desafiadores de sua vida - um período de Grande Intensidade em vez de uma Grande Pausa".


“A minha preocupação principal é garantir um ambiente saudável para mim e para ele (Joaquim). Mesmo na pandemia a gente vai à praia, uma praia mais afastada, sem ninguém. Eu consigo estabelecer em casa momentos de lazer e de brincadeira. É o que eu faço, entendendo eu não estou substituindo nenhum amigo, porque esse lugar a mãe não pode ocupar, não estou substituindo a escola, porque também não é esse o lugar da mãe, eu sou a mãe que está tentando manter um filho ocupado, porque eu sei que é bom pra ele” comenta a professora e pesquisadora Bárbara Cazé, de Salvador (BA), sobre a sua preocupação em garantir possibilidades de lazer ao filho. 


Para a atendente DinnyCarla, o breve momento de descanso é tempo de estar com os filhos. “Meu momento de descanso é bem pequeno, tento aproveitar ao máximo meus filhos e ajudá-los com suas atividades, mas tento ao máximo relaxar e ficar em alguns momentos mais em silêncio”, conta.


Passear na casa das avós é a forma principal de lazer e descanso que a locutora Veronica Campanussio encontrou para possibilitar a seus filhos em tempos da covid-19. “Meus filhos gostam muito de sair pois eu os criei nessa rotina desde muito novos. Para eles, o contato com outras crianças faz falta, a escola e os passeios também. Para não ficarmos 100% em casa, eles são liberados de vez em quando para passear na casa das avós e com menor frequência, na casa do pai. A saudade de outras crianças permanece. Mas como eles são irmãos, brincam um com o outro”. 


A professora e bailarina Thaynah relata que os finais de semana são sua prioridade para estar com a filha, o companheiro e ter seu momento de descanso e conexão consigo. “Eu evito ao máximo trabalhar, fazer qualquer coisa fim de semana, porque para mim isso é muito prioridade. Estar com a minha família, com a minha filha, meu companheiro, para mim é prioridade. E quando eu descanso eu me conecto comigo. Porque é só quando eu estou descansando, que eu tenho a sensação de que eu estou viva, sabe? Isso me revigora, me regenera”, expõe.



É preciso valorizar o lazer e o mundo lúdico das crianças. Foto: Pexels


“A criança não sofre com o amanhã, a criança vive o hoje. Se hoje tem quadra, beleza. Se hoje tem praia, beleza. Hoje não tem nada, só tem casa, então ele vai pintar, vai desenhar, ele vai fingir que o quarto é a praia, ou são os desenhos. É esse mundo de inventar da criança que me ajudou a superar o vazio que eu senti, da frustração de não viver o que eu planejei viver. Ele me ajudou a superar. Isso foi incrível”, compartilha Bárbara Cazé, sobre os aprendizados com o filho ao lidar com a frustração de não poder se dedicar mais ao trabalho como professora e pesquisadora.