Veja entrevista completa com a doutora em psicologia, militante do Movimento Negro Unificado (MNU/ES) e do Núcleo Estadual de Mulheres Negras, Luizane Guedes

Por Sthefany Duhz
23/06/2021 15:30

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A mudança na vida das pessoas por conta do novo coronavírus não é novidade, mas o que acontece com a vida de milhares de mulheres pretas e mães solo, que estão em sua maioria sozinhas para cuidar de seus filhos e, muitas vezes, trabalhando na linha de frente da covid-19? “Essa mulher negra não tem com quem deixar as suas crianças e, normalmente, está na linha de frente nos serviços. Elas estão nas padarias, nos supermercados, são elas que são as técnicas de enfermagem”, expõe a psicóloga Luizane Guedes sobre consequências da pandemia na vida de mulheres pretas e mães solo. 


Novos desafios se destacaram e causaram impactos sociais com a convivência no mundo com o novo coronavírus. Viver o isolamento, perda de trabalho, de renda, o luto, insônia, ansiedade, o medo da contaminação, estão fazendo com que surjam uma série de problemas a nível de saúde mental e, muitas vezes, agravando os existentes. 


Temos a marca no país de mais de 18 milhões de casos confirmados e mais de 500 mil mortes causadas pela covid-19, segundo dados do Repositório de dados COVID-19 pelo Centro de Ciência e Engenharia de Sistemas da Universidade Johns Hopkins.


Neste cenário, enquanto a política governamental afirmava que ‘a economia não pode parar’ se opondo ao discurso mundial de isolamento social, de fato as atividades para a sustentabilidade da vida como o trabalho do cuidado e o trabalho doméstico que são atividades não remuneradas e exercidas em sua grande maioria por mulheres, não pararam e inclusive intensificaram. 


Segundo a pesquisa “Sem parar - o trabalho e a vida das mulheres na pandemia” realizada em 2020 por Gênero e Número e Sempreviva Organização Feminista (SOF), das 2.641 respostas, 50% das mulheres brasileiras passaram a cuidar de alguém na pandemia. O estudo também indica que 42% das mulheres responsáveis pelo cuidado de outra pessoa o fazem sem apoio de pessoas de fora do núcleo familiar. As mulheres negras indicaram ter menos apoio externo, correspondendo a 54% destes casos.

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50% das mulheres negras brasileiras passaram a cuidar de alguém na pandemia. Foto: Unsplash.


Outro dado alarmante é que 58% das mulheres desempregadas, são mulheres negras. Na pandemia, 40% das mulheres afirmaram que a sustentação da casa está em risco sendo que, a maior parte das mulheres que têm essa percepção são negras (55%), tendo como dificuldades principais o pagamento de contas básicas ou do aluguel.


A maioria das mães solo no país, cerca de 11,5 milhões que enfrentam riscos e dificuldades financeiras em período pandêmico, são mulheres negras e, 63% das casas brasileiras são chefiadas por mulheres negras que vivem abaixo da linha da pobreza, de acordo com a Síntese dos Indicadores Sociais, do IBGE.


“Por serem mulheres negras, mães solo, elas terão uma sequência de dificuldades. Por exemplo, questões de mercado de trabalho, a manutenção desse emprego e a própria renda vai ser diferenciada para a mulher negra e a mãe solo”, explica a psicóloga Luizane Guedes.


Cria da comunidade de Santo Antônio (Vitória), psicóloga atuante no Centro de Referência de Assistência Social (CREAS), doutora, pesquisadora e militante do Movimento Negro Unificado (MNU/ES) e do Núcleo Estadual de Mulheres Negras, Luizane Guedes, em entrevista ao CineMarias, conta sobre os desafios de mulheres pretas e mães solo na pandemia, sobre formas de lidar com a perda e o luto e os caminhos possíveis a seguir  em mais de um ano de convivência com o novo coronavírus.




Luizane Guedes na mesa Direitos e segurança da mulher, pelo CineMarias. Foto: CineMarias/Zanete Dadalto.


CineMarias:


Como a pandemia se expressa para as mulheres negras, mães e mães solo?



Luizane Guedes
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Por serem mulheres negras, mães solo, elas terão uma sequência de dificuldades. Por exemplo, questões de mercado de trabalho, a manutenção desse emprego e a própria renda vai ser diferenciada para a mulher negra e a mãe solo. Em geral, a pandemia vai agravar a situação dessas mulheres. Vai expor essa mulher ao mercado de trabalho que, muitas vezes, vai pagar pouco ou vai pagar menos ainda porque as relações de trabalho se fragilizaram ainda mais com a pandemia. Essa mulher negra não tem com quem deixar as suas crianças e, normalmente, está na linha de frente nos serviços. 


Elas estão nas padarias, nos supermercados, são elas que são as técnicas de enfermagem. Então, a pandemia vai ser uma outra “opressão”. E eu coloco entre aspas porque a pandemia em si não é uma opressão, mas ela vai se alinhar com outras opressões como a questão de raça, a questão de gênero, com esse lugar de mãe solo que ela acaba habitando, muitas vezes. A pandemia agrava essa situação na vida da mulher, porque ela vai expor ainda mais o lugar precário que esse corpo ocupa.


É precário no sentido de que ele é explorado, de que ele tem menos possibilidades. Por ser corpo negro e mulher negra é um corpo mais violado, está na linha de frente na luta contra covid-19. A pandemia é um tsunami na história dessa mulher que já vem em uma sequência de tempestades.


Em levantamento divulgado pela Agência Boria as mulheres negras profissionais da saúde são as que mais demonstram medo de contaminação pelo novo coronavírus (84,2% contra 69,7% para os homens brancos), sensação de despreparo para lidar com a crise (58,7% em comparação a 33,5%, dos homens brancos) e declaram ter sofrido mais assédio moral durante a pandemia (38%, em comparação a 25% dos homens brancos). Também são menos testadas (26%) e têm menos suporte de supervisores (54% contra 69%). Confira a pesquisa aqui.



CineMarias:


Como você vê a saúde mental dessas mães?

foto pexels
Foto: Pexels



Luizane Guedes
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Em geral, elas estão em um esgotamento completo. Porque ao mesmo tempo que ela não pode estar junto de seus filhos para protegê-los, ela ainda tem que estar na linha de frente, muitas vezes. 


A saúde mental dessa mulher acaba ficando em frangalhos. Ela não tem o direito nem de se expor enquanto uma mulher que está com a saúde mental fragilizada, porque ela é tida como louca também. Então, a saúde mental para a mulher negra, pobre, não tem espaço de cuidado. A ligação direta entre pobreza, negritude e loucura também é uma intersecção de opressões, que vai acontecer com essa mesma mulher que é mãe solo.


Às vezes, essa mulher se enxerga como uma mulher guerreira, porque está na linha de frente. De manhã, deixa as crianças com o vizinho, com sua mãe, ou com um amigo. Vai para o trabalho, volta, tem que trazer as crianças para casa e sua saúde mental em momento nenhum é colocada com algo importante. É como se o tempo todo essa mulher fosse uma guerreira e que vai resistir a tudo, inclusive ao covid-19. 



CineMarias:


Eu gostaria de te perguntar sobre o luto. Na sua tese sobre mães que perderam seus filhos em situações de violência, você fala sobre o luto, sobre armadilhas da vitimização e do preconceito e também sobre a construção de uma memória a partir de uma reatualização das histórias vividas, ressignificando o presente. Como podemos fazer para lidar com o atual presente? 


Desafio é transformar o luto em luta. Foto: Pexels

Luizane Guedes:


O trabalho que eu realizei com esses familiares, com as mães, mostrava para a gente que o luto podia ser vivenciado por alguns caminhos. O primeiro momento do luto é de fato você vivenciar todas as dores que são da perda, principalmente da perda violenta. E a pandemia é uma perda violenta. Não catalogada dentro do estudo do Ministério da Saúde, mas é porque você não tem o direito nem de realizar o rito de despedida do ente querido. 


E o luto vai te dar dois caminhos: o primeiro é se afundar na perda. Mas em um segundo momento, você vai acabar olhando para o acontecimento e, encontrando nele, formas de lidar no mundo. As mães vítimas de violência, normalmente engajam em núcleos que têm histórias e trajetórias de luta por justiça. E também, as vítimas da covid, vão acabar entrando neste processo. A gente sabe que as vítimas da covid também são vítimas do Estado.


São violências que vão causar dor, sofrimento, mas também vão causar processos de, eu gosto de dizer, resistência. Porque você resiste a morte mesmo ela estando presente na sua história de vida. Você constrói e reconstrói a vida daquele sujeito que te deixou por uma causa violenta ou por conta da pandemia.


Eu tenho visto jornais e as pessoas estão o tempo todo ressignificando as histórias das pessoas que perderam. Falando da ausência de leitos, da ausência de respiradores, da ausência de oxigênio. A pandemia vem a somar a essas violências que esses corpos sofriam anteriormente. Não é pela bala, mas é pela falta de oxigênio, é pela falta de leito. 



CineMarias:


E para as crianças? Como é esse processo de compreender o luto universal? Possivelmente, esta é a primeira vez que muitas crianças estão vivendo tão de perto a morte.

crianças correndo
Entre uma brincadeira e outra, crianças têm que lidar com o luto. Foto: Unsplash



Luizane Guedes
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É outro desafio, porque, querendo ou não, os pais vão preparando as crianças para a morte. Por exemplo, eu venho de uma família muito pobre. E minha tia tinha uma questão da religião muito forte para o catolicismo e, ao mesmo tempo, para a umbanda e o candomblé. Era aquela coisa de no domingo ir à igreja, mas na sexta-feira está de branco porque é dia de Oxalá. Nós fomos criados sabendo que a morte não era o fim. Que existiam outras possibilidades.    


Só que, neste momento, estamos vivendo uma morte muito repentina, muito  imediata.  Como ensinar para as crianças que elas têm que se proteger de uma doença que é invisível? Como a morte pode chegar pelo ar? Pensar isso para as crianças é difícil, e vivenciar o luto é ainda mais difícil. 


Como hoje, ensinar uma criança que a mãe dela foi para o céu, ou foi para o Orum, ou não foi para lugar nenhum e foi para debaixo da terra e, em qualquer nível de proximidade da explicação, seja ela religiosa ou não, como explicar que acabou? Ela saiu em dois dias e ela não voltará mais? As respostas, para uns, vai ser a religião. Para outros, será a energia do universo. Para outros, vai ser simplesmente que a morte chegou.



CineMarias:


Como que nossas perdas, as perdas de mães pretas, mães solo, podem ser ressignificadas hoje? 


Luizane Guedes:


A dor da perda não é uma doença que abate o sujeito e que você tem meios de lutar contra ela. Você não tem tempo para se despedir e nem para enterrar. É como mães que tiveram filhos desaparecidos na ditadura, você não tem um corpo. Um dos familiares reconhece e depois a família não tem acesso. É um luto sem o corpo, o que é muito pior. 


O primeiro momento é de extrema importância, não dá para você pular etapas, ainda mais quando perde alguém. Mesmo que nos primeiros dias você negue a existência dessa morte, em algum momento o seu corpo vai sinalizar fisicamente ou emocionalmente. 


Na pandemia que eu não posso ter proximidade com as pessoas, ter um abraço, é um grande desafio. E, muitas vezes, você ainda vai viver com a doença porque você também pode ter sido contaminado nesse processo. 


O que mais a gente tem visto são famílias inteiras contaminadas. Mães internadas que não sabem da morte do filho ainda. Então, o processo de luto é quebrado. Você sequer fica sabendo da morte do outro. Quando você sabe, é saindo da doença ou ainda na doença.


Eu não consigo te dar uma resposta única. Se você está em um ambiente familiar, é a presença. Não é a palavra, é a presença. Se você está sozinha, é ainda mais difícil. E aí, os amigos que estão mais próximos, mas não juntos, se disporem a ouvir. A estar junto mesmo que seja no silêncio. Hoje é nosso grande desafio viver o luto em tempos de uma pandemia tão dilacerante. É buscar os afetos mais próximos. Eles vão te ajudar a passar pelas etapas do luto.



CineMarias:


Que caminhos são possíveis para viver em pandemia e também viver com uma saúde mental, principalmente para as mães?

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Mães devem sempre buscar a própria rede de afeto. Foto: Shutterstock



Luizane Guedes
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Acessar a rede de afeto é fundamental. E quando eu falo rede de afeto é a rede de solidariedade que você tem. Pode ser familiar, rede de amigos mais próximos, aquele amigo que vem na sua porta te deixar uma comida, se você estiver contaminada. Ou, se vai na casa da sua mãe ver se ela está bem, porque você não pode ir por estar contaminada. É essa rede de relações que vai englobar familiares mas também vai englobar pessoas que têm laços de afetos que não são sanguíneos.  


Eu tenho tido algumas procuras por já ter trabalhado em hospital, e as pessoas querem saber notícias de seus familiares. E ontem aconteceu que de manhã, eu dei a notícia a uma amiga que o marido estava bem. Na hora do almoço, ela conseguiu dinheiro para o transporte por aplicativo ir buscar informações, e lá, ele chegou e o esposo estava gravíssimo. Como eu explico para ela a mudança de nove e meia para o meio dia? Não que ela tenha duvidado, mas como justificar a piora? A gente tem que produzir resistência, produzir afeto para todos esses processos. 


A grande construção da pandemia é você acionar as redes sem estar presente. E mais uma questão: quais as redes sobreviverão com a não presença? Quais são os afetos que eu posso acionar nesse momento? Quem irá me ajudar a seguir em frente? Estou desempregada? Quem pode me ajudar? Quem pode me ajudar a não sucumbir neste momento? A pandemia nos faz ficar nessa gangorra de ir e vir no fundo do poço. Não só pela morte, mas pelas dificuldades que ela expõe. 


Para as mães solos, para as mulheres negras que estão na linha de frente também. Estar no curso (CineMarias), por exemplo, é uma rede que está formada. Então é isso, quais os ambientes que eu tenho a possibilidade de me energizar? De me potencializar para continuar? Para seguir? Porque senão, vira só sobrevida. E a gente precisa viver também mesmo na pandemia.   

Foto de Destaque: Unsplash