Em uma semana, o CineMarias reuniu mulheres de áreas como cinema, educação, segurança pública, política, direitos humanos e imprensa em mais de 30 horas de programação online.

Por Sthefany Duhz
19/03/2021 15:14

Nota aos leitores: O CineMarias oferece abertamente todo conteúdo de sua plataforma por sua contribuição diária para a agenda 2030. 

O seminário
A tela por elas, realizado entre 08 e 12 de março, deixou saudade! Foram mais de 30 horas de evento, entre roda de bate-papo, três workshops e três mesas redondas - grande parte transmitida ao vivo pela internet e disponível no canal do CineMarias no YouTube.

O seminário A tela por elas abriu as atividades do CineMarias, ação de sensibilização e formação audiovisual que propõe trabalhar, de forma poética e artística, a reflexão e a memória sobre o enfrentamento da violência de gênero, o protagonismo e a representatividade feminina no cinema, na TV, nas redes e nos espaços de poder. 

A roda de bate-papo Deixa a mina falar! foi o primeiro momento do seminário. Conduzida por Deb Schulz e Mery Silva, do coletivo Nação Mulher ES, e pela empreendedora e sargenta Manuela Amaral, contou com relatos pessoais, dinâmicas de bate-papo e interação a partir das hashtags #DeixaAMinaFalar, #MeuAmigoSecreto e #PandemiaInvisível. O objetivo foi acolher as estudantes e fomentar o debate sobre enfrentamento da violência contra mulher e também do protagonismo feminino na construção de suas próprias narrativas.

CineMarias: roda de bate-papo Deixa a Mina Falar!
Crédito: CineMarias/ Deb Schulz em dinâmica na roda de bate-papo Deixa a Mina Falar!

Workshops com Eliza Capai, Kênia Freitas e Andrea Palermo
No workshop A tela por elas: resistência, poesia e representação da mulher no audiovisual, a jornalista e documentarista Eliza Capai falou sobre representatividade no audiovisual, a história da mulher no cinema e sua própria trajetória profissional, além de linguagens e filmes protagonizados por mulheres na produção contemporânea. Durante os três dias de workshop, foram mais de 10h de muita troca, histórias, potência e aprendizados. 

Um dos filmes que a documentarista exibiu foi O dia de Jerusa, de Viviane Ferreira, primeiro longa-metragem brasileiro de ficção com uma equipe majoritariamente formada por mulheres negras. A obra instigou o debate sobre a representatividade no audiovisual. “Boa parte de quem faz cinema é de classe mais alta, de homens que há muito tempo estão nesses lugares. E eles vão reproduzir o mundo do homem branco hétero. Quando a gente vê um filme todo protagonizado por pessoas negras, a gente se alerta para isso”, provocou Eliza.

CineMarias: workshop com Eliza Capai
Crédito: Workshop A tela por elas: resistência, poesia e representação da mulher no audiovisual com Eliza Capai

Já nos dois dias do workshop Afrofuturismo: fabulando futuros negros, com a pesquisadora, crítica e curadora de cinema Kênia Freitas, a programação trouxe a reflexão sobre o papel do cinema negro para fabulações de novos futuros e acesso a histórias que trazem a cultura africana e sua ancestralidade como tema de fundo.

Kênia abriu com a seguinte reflexão: "como a gente pode criar futuros negros que não tenham mais machismo e sejam melhores para as mulheres negras? Que, de alguma forma, nós possamos estar em outro lugar nesta sociedade?". A pesquisadora também compartilhou o vídeo da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie que fala sobre o perigo de uma única história, além de filmes com protagonismo de pessoas pretas, como o curta-metragem Kbela (2015), da diretora Yasmin Thayná. O filme retrata as histórias de resistência, luta e protagonismo de mulheres negras pelo direito de exercerem sua beleza natural.

Assista e confira a obra:


A roteirista e docente Andrea Palermo encerrou a agenda de workshops para as jovens bolsistas com a perspectiva e análise de como as personagens mulheres são abordadas e construídas nas narrativas audiovisuais clássicas. Uma das propostas foi trabalhar “A Jornada da Heroína”, que é uma abordagem proposta por Maureen Mordock que desafia o modelo de estrutura de narrativa vigente criado pelo norte-americano Joseph Campbell.

Mesas:  imprensa, direito e narrativas das mulheres
O CineMarias também trouxe três mesas redondas como forma de abordar temas sensíveis e importantes que envolvem mulheres, como enfrentamento à violência de gênero, imprensa e direitos das mulheres, além de protagonismo feminino e construção de novas narrativas. 

A primeira mesa, Imprensa, voz e a agenda de direito das mulheres, abordou as tendências e práticas da cobertura jornalística sobre a violência de gênero e a narrativa jornalística sobre a mulher. O papo contou com a participação da editora-chefe do jornal A Gazeta, Elaine Silva, com a advogada e idealizadora do coletivo Juntas e Seguras, Renata Bravo, com  a repórter de A Gazeta, Gla Carraretto, e a produtora da TV Vitória, Mayra Bandeira. E, ainda, com a mediação da jornalista Katilaine Chagas.

CineMarias: mesa Imprensa, voz e agenda das mulheres
Crédito: CineMarias/Zanete Dadalto. Jornalistas Mayra Bandeira, Katilaine Chagas e a advogada Renata Bravo

Durante a conversa, Elaine Silva comentou que ela é a primeira mulher a ocupar o seu cargo no jornal em que atua. "Eu sou a primeira editora-chefe em 92 anos de jornal, isso quebra paradigmas. E isso me inspirou a criar dentro da redação um projeto, uma política, uma ação que pudesse ter uma efetividade na cobertura de temas relacionados a mulheres", explicou Elaine, ao falar sobre o projeto
Todas Elas.

Já a produtora da TV Vitória, Mayra Bandeira, em resposta sobre a motivação de continuar contando histórias de mulheres, pontuou: "quando uma mulher traz uma trajetória diferente, também é uma forma de quebrar o ciclo dessa rotina de violência e dor (na cobertura jornalística)”.

Na quinta-feira (11), o CineMarias apresentou a mesa Direitos e segurança da mulher com a procuradora do Estado e professora de Direito da UFES, Catarina Gazele; a dra. em Psicologia e militante do Núcleo Estadual de Mulheres Negras do ES, Luizane Guedes; e a advogada e Secretária de Estado de Direitos Humanos, Nara Borgo. A mediação ficou por conta da jornalista Aline Alves.

Ao abordar a importância das políticas públicas para mulheres, Luizane Guedes alertou para a necessidade de garantia aos direitos das mulheres negras. “Se formos olhar o Atlas da Violência, as que mais sofrem são as mulheres negras. Não dá para se criar um programa de Estado, ou mesmo municipal, sem fazer essa leitura de que tem que atender a mulheres negras. A militância não é algo do momento atual, ela é histórica. A construção da militância tem que se ‘colar’ nessas diferenças”,  expôs a ativista.

CineMarias: Luizane Guedes
Crédito: CineMarias/Zanete Dadalto. Psicológica Luizane Guedes na mesa Direitos e segurança da mulher.

Além disso, temas como invisibilidade e liderança feminina também fizeram parte do debate desta segunda mesa. A Secretária de Estado de Direitos Humanos, Nara Borgo, relatou a invisibilidade de mulheres em espaços de poder. "Quando eu fui vice-presidente da OAB minha ficha caiu de como somos invisibilizadas. Na posse, eu era a única mulher e eu não fui cumprimentada nenhuma vez, nem pelo presidente de quem eu era a vice. Eu era questionada (por ser mulher) pela minha roupa, pelas minhas tatuagens, por tudo, menos pelo meu mestrado, meus cursos internacionais e as minhas pesquisas", comentou.

Para fechar a primeira edição do CineMarias, a terceira e última mesa contou com a presença da empreendedora e vice-governadora do Espírito Santo, Jacqueline Moraes; da realizadora audiovisual e professora do departamento de Comunicação Social da Ufes, Gabriela Santos Alves; e da doutoranda, autora e pesquisadora do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros, Bárbara Cazé. A mediação ficou por conta da jornalista e pesquisadora, Sthefany Duhz.

Com o nome A dona da história: a mulher como autora protagonista de suas próprias narrativas, a mesa propôs uma conversa sobre o espaço, direito à voz e o protagonismo feminino na construção de suas histórias. 

A vice-governadora, Jacqueline Moraes, emocionou o público com sua trajetória de vida, desde sua atuação como feirante à militância e vida política. Sua fala sobre representatividade e ocupação de espaços de liderança inspirou as jovens mulheres também que nos assistiam e marcou a força do encontro. “Lugar de fala para mim, hoje, é a representatividade. Porque eu quero que meninas que cresceram em Flexal II, como eu cresci em Flexal II, em Cariacica, meninas de cabelo cacheado como o meu, mulheres negras olhem e falem assim: se ela chegou lá, eu vou chegar também”, compartilhou a líder política.

CineMarias: mesa 3 com a vice-governadora Jacqueline Moraes
Crédito: Divulação/Vice-governadora do Espírito Santo, Jacqueline Moraes.

Já a professora Gabriela Santos Alves inundou com poesia a plateia que acompanhava o evento pelo Canal CineMarias no Youtube. Sua trajetória na educação instigou as jovens a protagonizarem suas histórias. “A minha dica para as meninas que são geniosas e que têm opiniões fortes é continuem sendo geniosas, tendo gênio forte e ocupando os lugares de vocês. Porque o lugar de uma mulher é onde ela quiser”, clamou Gabriela.

O CineMarias é uma realização do Instituto Vida Nova (Movive) e Puri Produções, com produção da Lúdica Audiovisual e apoio do Centro Universitário Faesa e da Agenda Mulher. O projeto tem recursos da Lei Aldir Blanc, por meio da Secretaria de Estado da Cultura do Espírito Santo (Secult-ES), direcionados pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo.