CineMarias indica filmes fora do eixo norte-americano

Por Gabriela Jucá
08/06/2021 17:33

Nota aos leitores: O CineMarias oferece abertamente todo conteúdo de sua plataforma por sua contribuição diária para a agenda 2030. 

Quentin Tarantino, Stanley Kubrick, Martin Scorsese e Steven Spielberg: o que esses nomes têm em comum? Não é preciso quebrar a cabeça para entender quem são eles: homens, brancos, norte-americanos e célebres diretores de cinema. Quando pensamos nesses nomes, automaticamente os associamos à genialidade, à originalidade, ao vanguardismo, enfim. A indústria, a crítica e o público os posicionam muito bem no tabuleiro cinematográfico para além do trabalho técnico: são verdadeiros artistas, autênticos e transgressores. 


Sim, esses diretores de fato marcaram (e marcam) as suas passagens na terra com obras excelentes. Já nos emocionamos com A Lista de Schindler, aplaudimos os caçadores de nazistas em Bastardos Inglórios e mergulhamos na trilha sonora melancólica de Taxi Driver. Mas somente esse tipo de cinema, dos já tão consagrados homens brancos diretores e dos grandes estúdios hollywoodianos, já não basta – há muito tempo. 


O cinema já está saturado de narrativas femininas criadas por homens e postas em frames para o deleite de outros homens. Aquela história de mulher como um acessório, frágil, subserviente e mera coadjuvante já desagrada o público. A sociedade e a indústria já têm se atentado a isso. Não é à toa que Harvey Weinstein, que tanto já produziu filmes para Tarantino, foi condenado a 23 anos de prisão por estupro, graças às vozes femininas que ecoaram pelo mundo e denunciaram o predador sexual na esteira do movimento #MeToo.


Então, só chegamos a uma única conclusão possível: queremos filmes feitos por mulheres. Obras que são dirigidas, produzidas e roteirizadas por mulheres. Atuadas também, é claro, mas quem está por trás das câmeras importa – e não é pouco. São elas que irão apresentar novas narrativas, ampliar os horizontes do cinema e ir na contramão do que foi ditado, por muito tempo, pela grande indústria. 


Quem são elas? Quais são suas obras? Fugindo do eixo do cinema norte-americano, selecionamos alguns filmes dirigidos por mulheres. Todas as indicações têm um porquê, nada é arbitrário. São diretoras que seguem reescrevendo as narrativas que outrora já foram apresentadas, sempre com sensibilidade, novos estilos e diferentes perspectivas. Já avisamos: vale a pena adentrar nesse mundo.


Confira as indicações do CineMarias de filmes dirigidos por mulheres:


Amor Maldito (1984), de Adélia Sampaio

Cena do filme Amor Maldito
Cena de Amor Maldito (1984)

A equipe do Cine Marias é composta por fãs de carteirinha da Adélia Sampaio. Não é por menos: com Amor Maldito, ela foi a primeira mulher negra a dirigir um longa-metragem na história do cinema brasileiro. 


Na falta de adjetivos capazes de descrever a obra com esmero, resumimos a um: icônico. Marco da temática lésbica e baseado em fatos reais, o filme conta a história de amor entre duas mulheres: Fernanda, uma executiva, e Sueli, uma ex-miss de família evangélica. Reprimida pela família conservadora, Sueli comete suicídio. Fernanda, sua companheira, é acusada como responsável pela morte e enfrenta uma corte regada de preconceitos.


Para o tribunal, o crime em si não é julgado, mas sim, a homossexualidade das duas mulheres.


Polêmico e transgressor, Amor Maldito passou por cima do machismo, do racismo, e da homofobia – elementos extremamente latentes do Brasil de 1984. 37 anos depois, a obra permanece atemporal e fundamental para o Brasil de 2021.




Que horas ela volta? (2015), de Anna Muylaert

Regina Casé é Val em Que horas ela volta? (2015)
Regina Casé é Val em Que horas ela volta? (2015). Foto: Divulgação


Premiado em inúmeros festivais internacionais, como o de Sundance e Berlim, Que horas ela volta? escancara as mazelas da divisão de classes no Brasil. Estrelado por Regina Casé, foi baseado em experiências da própria diretora, Anna Muylaert, com uma babá, que cuidou de seu filho após ter deixado a própria filha no cuidado de terceiros.


A história circunda a vida de Val (Casé), mulher nordestina e empregada doméstica que, como tantas outras, vai em busca de um futuro melhor em São Paulo. A estabilidade financeira que adquire na capital paulistana é fruto do trabalho como babá do menino Fabinho, jovem de classe média alta, enquanto sua filha, Jéssica, reside no interior de Pernambuco. A culpa de não ter criado a filha é aliviada quando recebe a notícia que Jéssica decide prestar vestibular em São Paulo, o que enxerga como uma segunda chance de reaproximação.


Quando Jéssica chega a São Paulo, as duas têm problemas de convivência. Dividida pelos protocolos entre patrões e empregadas, a personagem de Val precisa se equilibrar em várias para decidir quais serão os próximos capítulos de sua vida. Destaque para a atuação de Regina Casé como Val.




A Mulher Sem Cabeça (2008), de Lucrecia Martel

Cena de A mulher sem cabeça
Cinema argentino: A mulher sem cabeça (2008). Foto: Divulgação


Já conhecia as obras de Lucrecia Martel? A cineasta tem produzido uma filmografia singular para o cinema argentino, e já se consagrou com títulos como O Pântano (2001), A Menina Santa (2004) e Zama (2017)


Em A Mulher Sem Cabeça, Martel produz uma narrativa sobre Verónica, uma dentista de classe média alta, que, em um momento distraída pela estrada, atropela algo com seu carro. Sem prestar socorro, apenas segue viagem. Depois de alguns dias, confidencia ao marido que atropelou algo/alguém. Seria um animal? Ou uma pessoa? Juntos, viajam pelo caminho e, em dúvida se possivelmente assassinou alguém, ela mergulha no sentimento de culpa e vê sua vida desmoronar.


As relações de classe e de família, recorrentes nas obras da cineasta, também fazem uma ponte com as relações estabelecidas no período da ditadura militar argentina. Em entrevista sobre o filme, à época, Lucrecia Martel destacou: “Estava interessada em explorar como para uma mesma classe social é muito mais fácil se proteger, enquanto outras estão totalmente desprotegidas; como para uma determinada classe é mais fácil escapar à justiça e deixá-la de lado do que para outra”.


Tenso e enigmático, A Mulher Sem Cabeça é um suspense que não se faz nos sustos, mas sim, nas entrelinhas e nos silêncios das personagens. 

Cinco Graças (2015), de Deniz Gamze Ergüven
Cinco Graças
Irmãs em Cinco Graças (2015)

Da diretora turco-francesa Deniz Gamze Ergüven, Cinco Graças perpassa a vida de cinco jovens irmãs em um vilarejo turco. Elas, de espíritos livres, que costumam brincar e têm interesse pelos meninos da vila, passam a vivenciar as consequências desses atos, que, no ambiente onde vivem, são considerados como um escândalo.

A partir daí, passam a viver em uma espécie de prisão na própria casa: são impedidas de saírem desacompanhadas, usam somente vestidos largos e são encaminhadas para casamentos arranjados. As meninas, antes adeptas da liberdade, se tornam restritas ao que é tido como papel da mulher: cozinhar, arrumar a casa e manter-se virgem antes de casar.

Indicado ao Oscar de 2016 na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, Cinco Graças mescla momentos de alegria e rebeldia com momentos de angústia e tragédia em um contexto que imperam as tradições sociais e religiosas.



Nomadland (2021)
, de Chloé Zao

Frances McDormand
Frances McDormand, ganhadora do prêmio Oscar de Melhor Atriz em cena de Nomadland (2021). Foto: Divulgação


A última indicação tem o intuito de servir mais como um lembrete. Afinal de contas, Nomadland ainda não foi lançado em nenhum streaming no Brasil, mas o filme promete após arrematar seis indicações ao Oscar 2021 (Melhor Filme, Melhor Atriz, Melhor Direção, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Fotografia e Melhor Montagem) e abocanhar três estatuetas (Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Atriz).


Dirigido e escrito pela chinesa Chloé Zao, foi o primeiro filme realizado por uma mulher de ascendência asiática a receber a indicação de Melhor Direção. Em mais de 90 anos de premiação, apenas cinco mulheres foram indicadas à categoria sendo que, delas, apenas uma arrematou o prêmio – Kathryn Bigelow por Guerra ao Terror (2010).


Estrelado pela veterana Frances McDormand, Nomadland conta a história de Fern, que, após o colapso econômico da crise de 2008 na cidade em que vive, faz as malas e decide desbravar as estradas dos Estados Unidos em busca de uma vida fora da sociedade convencional, tornando-se, assim, uma nômade moderna.


No Brasil, o filme foi lançado nos cinemas no mês de abril, mas, por conta da pandemia, o acesso foi limitado. Não há previsão para lançamento do filme em plataformas de streaming no país.

Este conteúdo foi produzido em parceria com o Centro Universitário Faesa, com a supervisão da professora do curso de Jornalismo Emília Manente.