Fenômeno entre o público e a crítica, Torto Arado marca presença na literatura brasileira ao abordar vivências quilombolas

Por Gabriela Jucá
14/06/2021 17:24

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"Mais de 15% do território nacional é demarcado como terra indígena e quilombolas. Menos de um milhão de pessoas vivem nestes lugares isolados do Brasil de verdade, exploradas e manipuladas por ONGs. Vamos juntos integrar estes cidadãos e valorizar a todos os brasileiros”,
disse o presidente Jair Bolsonaro, via Twitter, no dia 02 de janeiro de 2019.

Bom, não é novidade para ninguém o tratamento do governo atual com populações negras, indígenas e quilombolas. Tanto a demarcação de terras indígenas, antes responsabilidade da Fundação Nacional do Índio (Funai), como a demarcação de terras quilombolas, de responsabilidade do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), passaram a ser atribuídas, em conjunto, desde 2019, ao Ministério da Agricultura. Um Ministério que tem o costume de comportar os interesses de ruralistas e de latifundiários. São os “donos do agrobiz e reis do agronegócio”.  


Diante da dura realidade desses povos, que estão inseridos num ambiente de reforço de estereótipos racistas; de incitação à restrição de direitos; e de negação da escravidão e do genocídio dos povos negros e indígenas, há, no fim do arco-íris, documentos que comprovam, tanto cientificamente, como liricamente, as vivências e realidades desses povos. Obras que gritam: “Sim, nós (r)existimos.” A menção é para o excelente Torto Arado, do baiano Itamar Vieira Junior.


Capa de Torto Arado. Foto: Divulgação


Torto Arado é um fenômeno. Já arrematou três importantes prêmios literários na categoria romance – ganhou, em 2018, o Prêmio Leya, em Portugal; ganhou o Prêmio Jabuti e o Prêmio Oceanos no Brasil, em 2020. Mas os prêmios não são o que mais chamam atenção na prospecção que o romance vem ganhando: muito além da crítica, é o público que, principalmente pelas redes sociais, vem o consagrando como um novo clássico da literatura brasileira.


Lançado em 2019, o livro rodeia as vidas das irmãs Belonísia e Bibiana, mulheres negras, quilombolas, que habitam os confins do sertão baiano. O ponto de partida do romance se dá no encontro, quando meninas, com uma faca misteriosa guardada sob a cama da avó. Esse encontro resulta num acidente que emudece uma das irmãs. Com esse evento, as vidas dessas mulheres se entrelaçam para sempre, uma dando voz à outra, mesmo que trilhem caminhos distintos e um tanto quanto sinuosos.


O autor, Itamar Vieira Junior, é geógrafo por formação e doutor em Estudos Étnicos e Africanos pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), com ênfase no estudo sobre a formação de comunidades quilombolas no interior do Nordeste brasileiro. Ele ainda é servidor público do Incra, órgão que é responsável pela condução da reforma agrária no Brasil. Para além dos anos de pesquisa, foi da atuação como servidor, e a vivência com os povos quilombolas que o autor desenvolveu as narrativas de Torto Arado.


Esse texto não tem o intuito de seguir o caminho de uma análise literária, ou expor a alternância de focos narrativos ou propor uma vista minuciosa aos lirismos anunciados por Vieira Junior. Sobretudo, o intuito é convidar e instigar você, Maria, a mergulhar no tempo, espaço e história do Brasil esquecido e pungente de Torto Arado: um país que guarda as reminiscências da escravidão; o machismo; o colonialismo; as micro e macro violências; o direito à terra; a falta de acesso à educação; dentre tantos outros elementos. 


Para além do contexto social, a obra é toda permeada pelas ancestralidades e pela religiosidade latente do povo quilombola, representada pelos ritos de Jarê, religião de matriz africana que resiste entre os povos que habitam os arredores da Chapada Diamantina, na Bahia. A religião pode ser considerada uma mescla das nações bantu e nagô, que foram incorporadas ao culto aos caboclos. 


O burburinho sobre Torto Arado não promete parar tão cedo. A crítica, ora aplaude, ora discorda de passagens que foram apresentados pelo autor – o que não é nenhum problema, afinal de contas, esse é o papel da crítica. Mas é o público, os leitores e leitoras que irão interpretar e esmiuçar os ditos, os não ditos e os interditos de Torto Arado


Portanto, cabe a você, Maria, decidir se quer embarcar nessa jornada que, particularmente, a tive como fascinante. É um Brasil que pouco se fala liricamente e, ver emergir um clássico na literatura, dessa magnitude, aos nossos olhos, no nosso tempo, é um baita privilégio. 


Se ainda não foi convencida a engatar a leitura, deixo uma passagem de Belonísia, que bem simboliza quem são as mulheres protagonistas dessa história:


“Não tinha medo de homem, era neta de Donana e filha de Salu, que fizeram homens dobrar a língua para se dirigirem a elas. ” (Torto Arado, p. 105)


Homens, governantes, reis do agrobiz, fiquem espertos. Há muitas Belonísias, Bibianas, Donanas e Salus por aí. 

Foto de destaque: Giovanni Marrozzini/Perugia Social Photo Fest

Este conteúdo foi produzido em parceria com o Centro Universitário Faesa, com a supervisão da professora do curso de Jornalismo Emília Manente.