Negra e periférica, Jacqueline Moraes é a primeira mulher a chegar à Vice-Governadoria do Espírito Santo. Ela trabalha para que mais mulheres como ela possam chegar onde quiserem

Por Gabriela Jucá
30/06/2021 09:20

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“A cidade tá aberta”, costumavam dizer os vendedores ambulantes. Esses dizeres não indicavam uma cidade de braços abertos para os receberem com dignidade, mas uma cidade em que os camelôs não enfrentavam os mesmos percalços com a fiscalização do “rápa”, muito mais comum no Rio de Janeiro. Foi assim que a capital capixaba e seus arredores bem receberam uma família de ambulantes da Baixada Fluminense, que trouxe consigo a filha de 12 anos, hoje, a primeira mulher a chegar à Vice-Governadoria do Estado do Espírito Santo.


A Vice-Governadora Jacqueline de Moraes costumava trabalhar com a família, de domingo a domingo, vendendo acessórios e consertando pulseiras de relógio. Os lugares variavam: transitavam pela Praça Oito e pelo Parque Moscoso, no centro de Vitória, e marcavam presença nas feiras de Aribiri e Campo Grande. Entre uma venda e outra, uma prosa aqui, uma brincadeira acolá, Jacqueline depositava toda sua força no trabalho, que aprendeu com o pai. “A gente só é respeitado na vida se tiver dinheiro”, dizia ele.


Crescendo com essa ideia, a vida a guiou para o mundo do trabalho. Abandonou os estudos e, tempos depois, precisou trabalhar ainda mais para ajudar no sustento da casa, quando seu pai faleceu. Aos 19 anos engravidou e criou a filha sendo mãe solo, com a renda da barraca que mantinha – “não quis casar de jeito nenhum”, diz ela, enfática. Aos 26 anos, conheceu o esposo, muitíssimo envolvido com associações e movimentos sociais. Aos poucos, o casal já foi se tornando uma liderança. Jacqueline casou, decidiu voltar a estudar e foi despertando para a política.


Quando mais jovem, costumava brincar na Praça nos intervalos das vendas da barraca. Atingindo a maturidade, sendo mãe, esposa, trabalhadora e líder política, o desafio para estudar foi muito maior. Foram 8 anos, estudando com o pouco tempo que tinha, para finalizar o ensino médio pela Educação de Jovens e Adultos (EJA), que fez questão de concluir.  Após todos os anos de EJA e dois mandatos como vereadora de Cariacica, hoje, a vice-governadora do Espírito Santo conquistou o diploma de bacharel em Direito.


O caminho não foi fácil. E é por isso mesmo que Jacqueline trabalha para impulsionar que outras meninas como ela, negras e periféricas, consigam atingir melhores oportunidades por caminhos não tão sinuosos.

Momento de virada: Trabalho Político


Chegar num cargo tão importante como o que ocupa nunca foi o objetivo máximo. Ela foi líder comunitária, presidente de Associações, vereadora – e fazia de tudo, desde a elaboração de melhorias, pavimentação do bairro até atividades mais lúdicas, como decorar a rua em época de Copa do Mundo. “As lutas que precisam te mover. O trabalho diário e o cuidado com a coletividade que me impulsionou”, diz ela. Nada foi impositivo.

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Jacqueline Moraes é movida pela coletividade. Foto: Leandro Braga


Quem vê essa mulher de sorriso largo e bom humor, nem imagina do que ela é capaz quando o assunto é injustiça. Se fosse preciso, arrumava confusão. O que não podia acontecer era permanecer incomodada. “Minha vida é feita de incômodos. Se o sapato tá apertado, tiro o sapato e compro uma havaiana. Busco sempre uma solução”.


Desse incômodo começou a perceber o tratamento dado às mulheres que compunham a mesa política. Quando falava que queria fazer um mandato sem ser necessariamente assistencialista, os colegas a chamavam de “Alice no país das Maravilhas”. Enquanto vereadores gastavam verba em soluções mais imediatistas, no fornecimento de caixões, brita e cimento às populações, Jacqueline queria fazer política pública de verdade, focada nas mulheres e discutir projetos em um espectro macro. Não encontrar uma solução não era uma opção.


Foi assim que foi atrás de um espaço mais amplo e recorreu ao partido que é representada hoje, o Partido Socialista Brasileiro (PSB). Enquanto vereadora, em outro partido, não havia feito nenhum curso voltado para a elaboração de políticas públicas voltadas para mulheres (no PSB fez cinco). Começou a debater temas de amplitude e relevância para o Estado e, assim, veio o convite do Governador Renato Casagrande para que ela integrasse sua chapa.



Políticas Públicas: Vozes Femininas


Jacqueline entrou para história ao ser a primeira mulher negra e periférica a ocupar o cargo da Vice-Governadoria. Mas será que entrar para história é o suficiente? Ela afirma, categoricamente, que não. É preciso trabalhar por um legado, para que outras mulheres possam prosperar nos caminhos que desejam seguir. Foi nessa ideia que, durante o seu mandato, decidiu que iria apoiar todo o tipo de política pública voltada para as mulheres.


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Apresentando o Programa Agenda Mulher. Foto: Leandro Braga


Junto a secretarias do Governo do Estado, institucionalizou o Plano Estadual de Políticas para as Mulheres do Espírito Santo (PEPMES), apoiou o Pacto da Erradicação de Violência contra a Mulher e, ainda, lançou o Programa Agenda Mulher, que tem como objetivo principal empoderar e dar visibilidade às mulheres por meio do empreendedorismo, ofertando capacitações e promovendo o autoconhecimento. “Conversei com cada secretário e fiz questão que cada pasta tivesse um recorte de gênero”.


A elaboração dessas políticas diz muito, também, sobre quem é a Jacqueline, que acredita no empreendedorismo feminino como um elemento transformador da sociedade – ela pode, ela vai e ela consegue.



Desafios


No Brasil, as mulheres compõem 52,5% do eleitorado. No entanto, configuram menos de 15% dos representantes eleitos. Para Jacqueline, o processo por mais mulheres na política está caminhando de forma gradual. Com mudanças na legislação, como a obrigatoriedade de representantes femininas nos partidos políticos, ela vê uma luz no fim do túnel. “Mas nada disso é garantido. Precisamos estar sempre atentas”, ressalta.


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Jacqueline luta por mais mulheres na política. Foto: Leandro Braga (registrada antes da pandemia).


Culturalmente, o machismo ainda se faz muito presente no dia-a-dia. Mulheres cresceram com a premissa da rivalidade, em um eterno “nós contra nós”. Mas isso precisa mudar (e está mudando). Para os homens, a política não era terreno fértil para o sexo oposto. Tanto que, em 2021, preferem discutir as vestimentas femininas em vez de discutir projetos de políticas públicas.


Embora o Brasil de 2021 esteja enfrentando ataques à democracia, Jacqueline ainda é muito esperançosa: ela acredita veemente que as coisas podem sempre melhorar. “Ainda estamos no processo de quebra de paradigmas. É um processo lento e gradual, mas já enxergo um futuro, melhor que o nosso, para minhas filhas e netas”. É esse o legado que ela deseja fazer parte.



Representatividade Importa


O mundo está mudando. O avanço de pautas femininas, antirracistas, LGBTQIA+, dentre outras, só tende a decolar. Para os setores mais conservadores da sociedade, esse avanço representaria a quebra da “moral e dos bons costumes”. E, ainda, para descredibilizar esses movimentos sociais, é propagada uma avalanche de notícias falsas. Como romper com o temido status quo?


Para a Vice-Governadora, a resposta é clara e simples: Informação. Como pressuposto de uma sociedade democrática, a informação crível e bem apurada é a arma contra as fake news. “As mentiras e os ataques são estratégias para te prender num lugar onde essas pessoas querem ganhar dinheiro”, diz ela.


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A Vice-Governadora do Espírito Santo trabalha para que mais meninas negras ocupem os espaços que desejam. Foto: Leandro Braga


Para o futuro, ela vê uma geração mais consciente e humanizada. As ideias da extrema-direita, de incitação ao ódio e repressão de direitos têm afetado toda a população brasileira. Jacqueline é firme ao afirmar que esse poder é passageiro. “Não podemos nos esquecer que representatividade importa. Vamos seguir ocupando mais espaços de voz, fala e poder.”


O importante é não perder o foco: seu trabalho é por mais meninas negras e periféricas, como ela, ocupando os espaços que desejam. Ver as mais jovens brilhando a atingindo seus objetivos é o que a move: ela quer ser referência para que outras sigam seus sonhos. “A caminhada é longa e necessária e é preciso que a gente trabalhe”, finaliza.

Este conteúdo foi produzido em parceria com o Centro Universitário Faesa, com a supervisão da professora do curso de Jornalismo Emília Manente.