Roteirista paulistana fala sobre vida, patriarcado e mulheres no audiovisual

Por Gabriela Jucá
07/07/2021 13:33

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A cena é a seguinte: um casal apaixonado tem um encontro noturno, às escondidas, num belo jardim austríaco, ao final da década de 30, um pouco antes do regime nazista tomar conta do lugar. A atmosfera é de encantamento total – a moça, completamente caidinha aos charmes do jovem, inclina seu corpo próximo a ele e entoa, sedutoramente, uma das canções que marcaria o filme em questão. Estamos falando de Sixteen going on seventeen, que faz parte da trilha sonora de “A Noviça Rebelde”, musical americano de 1965.

A cena icônica é entre a filha mais velha do Capitão Von Trapp, Liesl, e o seu namoradinho nazista sem charme, Rolf, que diz à jovem em forma de canção: “Você espera, menininha, em um palco vazio / O destino acender a luz / Sua vida, menininha, é uma página em branco / Que os homens vão querer escrever nela”.

A vida das mulheres, por muito tempo, foi posta nesse lugar da página em branco: suas histórias passariam a ser contadas a partir do olhar masculino e da existência de um homem ao seu lado. Nada mais ultrajante e cafona para os dias atuais.

Toda essa cena e os dizeres entoados remeteram ao seminário realizado pelo CineMarias, A tela por elas. Fui atrás da roteirista e docente Andrea Palermo, com quem tive uma conversa agradabilíssima, que, à época, apresentou a perspectiva e análise de como as personagens femininas são abordadas nas histórias que eles contam.

Uma das propostas da Andrea foi apresentar, durante o workshop, “A Jornada da Heroína”, uma abordagem proposta por Maureen Mordock que vai na contramão do modelo da “Jornada do Herói”, criada pelo norte-americano Joseph Campbell. A jornada da heroína é uma busca interior e contempla um processo de cura. Conversamos sobre o assunto e mais. Confira a entrevista:

Andrea, queria saber primeiro um pouco mais sobre você. Pelas minhas pesquisas, vi que, além de roteirista e escritora, você é advogada. Qual é a sua história?
Eu gosto de falar que eu fui advogada (risos). Eu ainda exerço um pouquinho, meio contrariada para falar a verdade. Só em estado de necessidade. Eu escolhi uma profissão que não estava exatamente no caminho da minha vocação, que tem a ver com contar histórias. Se tem algo que realmente me move, que é o que eu amo e vejo sentido, é contar histórias. Eu acabei parando nesse mundo do Direito, onde fiquei por mais de 20 anos. Cheguei num momento que eu tinha atingido um certo sucesso, uma certa condição financeira confortável, mas zero de satisfação interior. Eu comecei essa minha busca interna, que por sinal é um processo intimamente ligado com a jornada da heroína. Quando apresentei esse tema no workshop do Cine Marias, estava ali vivendo a minha jornada pessoal da heroína, de descobertas! Aos poucos fui concluindo que eu precisava me desvencilhar de alguma forma do mundo do Direito. O mundo jurídico é bem formal, todo mundo é Doutor, no nosso país isso significa status. Como eu não estava em mim, era vazio. Aí, entrei no caminho do autoconhecimento, processo louco, que envolveu terapia e mais um monte de coisa, uma luta. Quando você abre mão de alguma coisa que significa sucesso aos olhos dos outros, você é tirada de louca. Não quero mais nada disso, não me fazia feliz. Todo dia eu ia me deitar me sentindo uma pessoa vendida (risos).

O que te conduziu para o caminho do universo audiovisual?
Fiz essa migração, aos trancos e barrancos, do mundo jurídico, para o mundo das histórias. Comecei a estudar primeiro literatura, depois o audiovisual e, em seguida, passei a navegar pelas várias possibilidades de narrativa. Eu gosto muito dessa discussão – do poder das histórias -, porque as pessoas olham, num primeiro momento, e podem imaginar: nossa que coisa fútil, que coisa menor! Que graça tem contar histórias? E aí, quando você vai estudar a fundo, que somos produtos das nossas histórias, que a gente está onde a gente está por conta das histórias que nos foram contadas, e que podemos mudar o rumo das coisas, tanto para o lado bom, como para o lado ruim, tudo muda. Ao mesmo tempo em que as histórias têm um enorme poder, elas têm uma função social muito forte, e eu acredito nisso.

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Andrea Palermo: heroína da própria jornada. Foto: Acervo Pessoal

Nos workshops do Cine Marias, você abordou a questão da Jornada da Heroína. O que a difere da Jornada do herói? Qual é a história que eles contam? E a que elas querem contar?

A jornada da heroína é uma jornada interior. É uma jornada voltada para o seu autodescobrimento, que é um processo de resgate da essência feminina perdida. Tem muito a ver com a questão do patriarcado, o quanto a gente vive aí, talvez, 10.000 anos, de patriarcado. Essa experiência da nossa história recente provocou, em todos os seres humanos, de alguma maneira, um massacre da essência feminina, que existe tanto nos homens, como nas mulheres. É curioso observar que, em todos esses anos de patriarcado, a cada geração, a gente vive dos valores que nos foram transmitidos. De geração em geração, a essência feminina foi sendo afogada, jogada fora. A jornada da heroína é uma proposta de resgate dessa essência, que se propõe a mudar o mundo, a partir de uma perspectiva diferente, que é uma perspectiva feminina que existiu no que podemos chamar hoje de “sociedade pré-histórica”, que tinham características muito diferentes da sociedade atual. O modelo patriarcal é um modelo de dominação. Isso é extraído da essência masculina, que também vive em nós, mulheres. A essência feminina é oposta a isso. São muitas maneiras de aplicar a Jornada da Heroína, tanto no âmbito pessoal, e até na forma como eu vou começar a contar novas histórias, que não serão mais movidas por um herói, que está em busca de poder. Faz muitos anos que escutamos histórias sob essa perspectiva, se olharmos para a jornada da heroína e criarmos outras perspectivas, que é este modelo pacífico, de enxergar o seu lugar dentro de um todo, e aceitar o outro, podemos modificar o mundo para melhor, a partir da iniciativa feminina.

Para você, qual o impacto da produção audiovisual feminina? Não só com mulheres atuando para as câmeras, mas como você, por trás das câmeras.
É sempre uma grande luta. Tudo tem a ver com a jornada da heróina e tem tudo a ver com os 10000 anos de patriarcado (risos). Se a gente não vivesse sobre o patriarcado, se falássemos de cinema para qualquer pessoa do mundo, as referências não seriam os irmãos Lumière, mas Alice Guy Blaché. Os caras criaram a máquina, que capta as imagens em movimento. Só que eles não sabiam muito bem o que fazer com essa máquina, que tinha uma perspectiva de ser algo que pudesse substituir a fotografia. Foi isso que eles fizeram. Quem criou o cinema foi ela. Ela viu a máquina numa exibição, ela teve a ideia. É quase como se fosse uma transposição do teatro para o cinema, mesmo que não captasse som, ela foi a visionária de ver e falar: consigo contar essa história, ainda que fosse o cinema mudo. Ninguém fala dessa mulher quando a gente fala de cinema, essa história só tem sido resgatada nesses últimos anos. Qualquer área do conhecimento que você olha, você vai descobrir uma mulher apagada.

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Mulheres lutam por mais espaço no audiovisual. Foto: Unsplash

Quais os caminhos você tem trilhado para visibilizar o trabalho de mulheres no audiovisual? A forma de se relacionar com o mercado é a mesma para os homens?
É totalmente diferente! De maneira geral, em quase todas as áreas do conhecimento. A gente precisa de cotas, que são necessárias nesse momento, que é um reflexo de tudo que foi feito com a mulher nesses longos anos de patriarcado.

Como tem sido a produção audiovisual em tempos de pandemia e de faltas de incentivos do poder público?
É um momento duplamente difícil. Já fazemos parte de uma área que vinha sendo massacrada por esse desgoverno. Todas as áreas artísticas foram muito prejudicadas com a situação da pandemia. No Brasil, já estávamos vivendo esse movimento de calar essas vozes, fundamentais para o desenvolvimento da nossa sociedade. Vivemos um Plano de não plano, de acabar com tudo. É, de novo, voltado para os moldes do patriarcado, nesse caso, da pior maneira possível. Sou otimista, sou capaz de acreditar no impeachment, por que não? Não conseguimos saber quando vamos voltar, mas as manifestações artísticas no geral, sobretudo no Brasil, vão voltar com tudo. Não sei se da mesma maneira, mas sabemos que isso é possível. O teatro, a música, o audiovisual, as artes plásticas, o que quer que seja, exposição, ou mesmo um passeio no parque, tudo isso vai voltar. Vamos segurando as pontas onde dá, que uma hora a gente consegue retomar tudo isso.

O que diria para mulheres que desejam iniciar uma carreira no audiovisual?
Não desista do seu sonho! Corra atrás! O audiovisual precisa de mais mulheres!


Este conteúdo foi produzido em parceria com o Centro Universitário Faesa, com a supervisão da professora do curso de Jornalismo Emília Manente.