“Como negra, filha de uma empregada doméstica bastarda, é importante para mim filmar inquietações e dores”, manifesta a cineasta em entrevista ao CineMarias

Por Sthefany Duhz
08/06/2021 17:39

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Adélia Sampaio é uma cineasta negra e referência para mulheres e futuras realizadoras, e principalmente realizadoras negras que sonham em materializar seus filmes. Ela também é uma referência em suas escolhas audiovisuais, que relatam denúncias e dores humanas, com produções cinematográficas que escolhem ter um posicionamento dentro da sociedade brasileira.

Sampaio é vanguardista, aliás a família é. Sua irmã, Eliana Cobbett foi a primeira produtora executiva no cinema brasileiro e foi ela quem apresentou a Adélia uma sala de cinema. "Eu nunca tinha entrado em um cinema, nem imaginava como era. Minha irmã trabalhava em uma distribuidora de filmes russos e me convidou para saber como era”, declara.

Filha de empregada doméstica, hoje uma mulher de 76 anos que aos sete anos de idade foi separada da mãe, que só pode revê-la aos 13 anos. “Nesse tempo decorrido comecei a ter a certeza que a mãe não me amava. Quando ela apareceu no asilo com minha irmã e me disse que não foi me buscar antes porque tinha uma dívida financeira com a patroa, na verdade ela foi escravizada”, relata.

Os filmes de Sampaio são uma forma de denúncia a preconceitos e vivências humanas. “Para mim, é [fundamental] investigar as dores e angústias dos seres humanos e ter a certeza que se for denunciado, um dia vai rolar”, desabafa.

Em entrevista, Adélia Sampaio prontamente conta ao CineMarias histórias desde o primeiro contato com o cinema, as suas preferências e um pouco da sua trajetória de vida e, ainda, deixa uma mensagem às jovens bolsistas do lab-imersivo.

CineMarias:
De onde surgiu a paixão e o primeiro contato com o cinema?

Adélia Sampaio:
Quando voltei de um asilo no interior de Minas, eu nunca tinha entrado em um cinema, nem imaginava como era. Minha irmã trabalhava em uma distribuidora de filmes russos e me convidou para saber como era. Eu nem entendia, mas a ideia de passear era muito boa. Exibiram o filme “Ivan, O Terrível” e quando a luz apagou, clareou uma janela enorme na minha frente. Eu fiquei encantada com as imagens que se movimentavam na tela. E pensei: VOU FAZER ISSO! A luz se acendeu e eu eufórica falei com a minha irmã. Ela sorriu com um ar de piedade. Eliana por ser mais velha tinha muita paciência comigo.

Aos seis anos, Adélia foi separada da sua mãe Guiomar que foi para o Rio de Janeiro com a família da patroa e Sampaio foi encaminhada a um asilo em Santa Lúcia, no interior de Minas Gerais, por uma das filhas da antiga patroa que havia morrido. Só aos 13 anos de Adélia que a sua mãe conseguiu tirar férias, pagar as despesas do orfanato e trazer a filha para o Rio.

CineMarias:
Quais foram as marcas na sua trajetória que destacam o caminho de início até o seu primeiro filme?

Adélia Sampaio:
Não tive tempo de guardar ou juntar marcas, passei a borracha. Encontrei uma forma de filmar usando pontas de filmes sempre com a ajuda de minha irmã Eliana Cobbett (primeira produtora executiva mulher).


Crédito: Acervo Pessoal/Adélia Sampaio e sua irmã, Eliana Cobbett.

A irmã de Adélia Sampaio, Eliana Cobbett, também foi pioneira no universo cinematográfico. Ela foi a primeira mulher produtora executiva de filmes no Brasil. Segundo o jornal A Gazeta do Povo, Eliana Cobbett desenvolveu trabalhos com os principais diretores do movimento Cinema Novo. Ela foi responsável pelas produtoras Tabajara Filmes e Difilmes e também trabalhou em obras vencedoras de prêmios como Jesuíno Brilhante (1972), dirigido por Willlam Cobbett, seu falecido marido. Produziu uma das maiores bilheterias do país, com mais de um milhão de espectadores, A vida de Jesus Cristo (1971). Produziu ainda O grande palhaço (1980), também de William Cobbett, e O coronel e o lobisomem (2005) de Alcino Diniz. A história da família é de muito protagonismo de mulheres.

CineMarias:
O que te move/inspira a fazer cinema?

Adélia Sampaio:
Creio seriamente que o cinema tem dois atalhos. Um de divertir e outro de denunciar. “Denúncia Vazia” denuncia o descaso que o país tem com a velhice. “Amor Maldito” denuncia a violência de palavras como forma de ferir e aniquilar seres humanos, “AI5” (O dia que não existiu) numa parceria com o jornalista Paulo Markun mostramos a prenúncio a chegada da ditadura no país. Creio ser esse o meu cinema.

Assista o curta-metragem Denúncia Vazia (1979), direção de Adélia Sampaio:


CineMarias:
Como é a sua relação com o universo do cinema?

Adélia Sampaio:
Exceto pelo fato de ser mãe, o meu universo que pontuou as minhas emoções foi e é o cinema.

CineMarias:
O que você preza nas suas direções/produção? O que é fundamental para ter em seus filmes?

Adélia Sampaio:
Para mim, é investigar as dores e angústias dos seres humanos e ter a certeza que se for denunciado, um dia vai rolar.

Assista o longa-metragem AI-05 O Dia Que Não Existiu (2001) com direção artística de Adélia Sampaio:


CineMarias:
Os seus filmes trazem questões sociais e políticas muito presentes. Seja no protagonismo lésbico, em Amor Maldito, seja os dois filmes sobre a Ditadura Militar. O que você procura trazer com esses recortes, com as suas escolhas cinematográficas? Como é importante falar sobre isso?

Adélia Sampaio:
É a minha escolha, creio que são recortes fundamentais. Não faria um filme sobre flores embora eu as ame.
Como negra, filha de uma empregada doméstica bastarda, é importante para mim filmar inquietações e dores, acho ser importante falar disso. Minha mãe, eu e minha irmã fomos trazidas por uma patroa que prometeu a mamãe tudo, no entanto nos separou e eu fui levada para um asilo de meninas órfãos aos sete anos e só vi a minha mãe quando já tinha 13 anos. Nesse tempo decorrido comecei a ter a certeza que a mãe não me amava. Quando ela apareceu no asilo com minha irmã me disse que não foi me buscar antes porque tinha uma dívida financeira com a patroa, na verdade ela foi escravizada.

Confira Amor Maldito (1984), direção de Adélia Sampaio:


CineMarias:
O CineMarias é uma iniciativa de sensibilização e formação audiovisual para jovens mulheres de comunidades da Grande Vitória, no Espírito Santo. Qual mensagem você deixaria para elas?

Adélia Sampaio:
Acredito muito nesta geração e aconselho: NUNCA DESISTAM DE SEUS SONHOS!

Confira o curta O Mundo de Dentro Legendado (2012) com direção de Adélia Sampaio:


Conheça alguns dos longas e curtas-metragem da carreira de Adélia Sampaio.

Direção:
Denúncia Vazia (1979)
Adulto não brinca (1980)
Na poeira das ruas (1982)
Amor Maldito (1984)
Fugindo do Passado (1987)
Scliar (1991)
O Mundo de Dentro (2018)

Roteiro:
Denúncia Vazia (1979)
O Segredo da Rosa (1974)
Adulto não brinca (1980)
Na poeira das ruas (1982)
Agora um Deus dança em mim (1981)
Amor Maldito (1984)
AI-5 - O Dia Que Não Existiu (2001)

Produção:
O Segredo da Rosa (1974)
O Monstro de Santa Tereza (1975)
O Seminarista (1976)
Um menino… Uma mulher (1980)
Parceiros da Aventura (1980)
O Grande Palhaço (1980)
Ele, Ela, Quem? (1980)
Amor Maldito (1984)
Fugindo do Passado (1987)

Edição:
AI-5 - O Dia Que Não Existiu (2001)